Desde pequena me interessei muito por livros. Primeiro li os que haviam em casa, os quais o pai trazia depois de sua pesada rotina diária. Depois os que a mãe se esforçava pra comprar, pois eu ligava mil vezes para o trabalho dela pra dizer os nomes dos infanto-juvenis que eu gostaria de ler.
Os sebos entraram em minha vida depois dos quinze anos. Arrecadava em casa e na vizinhança tudo de antigo que ninguém queria mais e corria para trocar no sebo. Trocava aquelas sacolas pesadas por livros e discos de vinil. Ah, os discos! Estes também fazem parte de mim ainda. Singela coleção. Singelo amor.
No segundo colegial, mudei de um colégio particular para um estadual e, no meio da confusão, descobri os encantos das bibliotecas. De início fui para cabular aula, depois, saía dela a cada dia com um livro novo e diferente. Alguns por empréstimo, outros por baixo da blusa da amiga, que chegava na sala de aula e me entregava como um presente, com sorriso nos lábios.
A biblioteca municipal era meu lugar preferido naquela cidade, além do meu quarto. Passei várias tardes lá dentro. Durante o cursinho e até nas férias do primeiro ano de faculdade estive lá. Como eu adorava aquele lugar, zanzava lá dentro como um inseto passando de flor em flor. A calmaria, as milhões de palavras juntas. A imensidão das páginas. Me atravessava o anseio de querer saber tudo, de ler todos aqueles livros. A pressa e a incapacidade de. Mas pela tarde, a luz entrava baixa e amarelada. Morna. Eu escolhia a mesa mais próxima às grandes janelas de vidro que iam até o chão, e me estancava. Lá eu era feliz. As prateleiras me protegiam do mundo lá fora.