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domingo, 14 de agosto de 2011

Desvio de atenção proposital

A ausência de meu pai está comigo entre essas paredes.Ela solidifica-se. Transforma-se na companhia de um coelho freak, verde, de paletó, sentado no sofá atrás de mim. Só vejo se o olhar de viés por cima do ombro direito.
Hoje será assim, nada de o encarar de frente.


Distrair a saudade, meu pai, é o esporte necessário para manter meu dia-a-dia saudável. Pois te vejo em meus pequenos atos, tudo que me ensinastes. Toda essa loucura lírica de suas/minhas entranhas. E ainda não aceito a idéia de que as coisas são efêmeras. Ainda sou a garotinha de olhos grandes que você pegava no colo e encostava minha cabeça apertada em seu peito, dizendo que está tudo bem. Que está tudo, tudo bem.

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Pequenos Prazeres - II de II

Toda vez que pego um livro, em qualquer biblioteca, ainda faço a brincadeira que costumava fazer há uns anos:  leio os nomes de quem já pegou o livro, na ficha de empréstimos, na capa de trás. Me deleito em ver os nomes das pessoas que se interessaram pelo mesmo assunto, há anos atrás! Ou não. Quem são essas pessoas? Era como se eu pudesse ler além dos nomes... O que pensavam no dia em que pegou o livro? Quais idéias as inspiravam? Seriam como eu?
    Os nomes eram como amigos irreconhecíveis na multidão. Abria o livro com certo receio, disfarçada. E o dedo, junto dos olhos, descendo a lista dos nomes e datas, me dava prazer. Me dava uma pequena alegria. Um pedaço de euforia dentro do silêncio da biblioteca. Mas o mais instigante, é encontrar em meio aos nomes desconhecidos, um nome conhecido. Reconhecido. Sublime sinapse platônica.
    Um dia desses fiz novamente, por extinto. E me reconheci. Me lembrei do amigo cujo nome foi encontrado na ficha. Agora, ele se encontra a um oceano de distância. Me lembrei da assinatura... a data  é de 2007. E me lembrei, que em 2007, eu andava pela biblioteca municipal...

Pequenos Prazeres - I de II

    Desde pequena me interessei muito por livros. Primeiro li os que haviam em casa, os quais o pai trazia depois de sua pesada rotina diária. Depois os que a mãe se esforçava pra comprar, pois eu ligava mil vezes para o trabalho dela pra dizer os nomes dos infanto-juvenis que eu gostaria de ler.
   Os sebos entraram em minha vida depois dos quinze anos. Arrecadava em casa e na vizinhança tudo de antigo que ninguém queria mais e corria para trocar no sebo. Trocava aquelas sacolas pesadas por livros e discos de vinil. Ah, os discos! Estes também fazem parte de mim ainda. Singela coleção. Singelo amor.
   No segundo colegial, mudei  de um colégio particular para um estadual e, no meio da confusão, descobri os encantos  das bibliotecas. De início fui para cabular aula, depois, saía dela a cada dia com um livro novo e diferente. Alguns por empréstimo, outros por baixo da blusa da amiga, que chegava na sala de aula e me entregava como um presente, com sorriso nos lábios.
   A biblioteca municipal era meu lugar preferido naquela cidade, além do meu quarto. Passei várias tardes lá dentro. Durante o cursinho e até nas férias do primeiro ano de faculdade estive lá. Como eu adorava aquele lugar, zanzava lá dentro como um inseto passando de flor em flor. A calmaria, as milhões de palavras juntas. A imensidão das páginas. Me atravessava o anseio de querer saber tudo, de ler todos aqueles livros. A pressa e a incapacidade de. Mas pela tarde, a luz entrava baixa e amarelada. Morna. Eu escolhia a mesa mais próxima às grandes janelas de vidro que iam até o chão, e me estancava. Lá eu era feliz. As prateleiras me protegiam do mundo lá fora.
  

sábado, 11 de setembro de 2010

Gibis

O pai os comprava
e os deixava ao lado do vaso,
- não o de flores.
Junto às cruzadas, caça-palavras
e à vontade de perder-se ao devaneio
pelo dia inteiro